Heróis da educação

Por Rubens Passos,

 

O dado é alarmante e demonstra que os problemas da educação no Brasil extrapolam muito a qualidade do ensino público, a baixa remuneração dos professores e a evasão escolar: no ano letivo de 2017, até o final de maio, houve apenas sete dias em que nenhuma escola municipal da cidade do Rio de Janeiro fechou por causa de tiroteios entre grupos do crime organizado ou em confrontos destes com a polícia.

 

Além da deficiência no aprendizado, já suficientemente grave como obstáculo ao pressuposto democrático da igualdade de oportunidades e à formação de novas gerações capazes de melhorar a produtividade, inovação e competitividade econômica, nossas crianças convivem precocemente com a violência à porta de suas escolas. Estas, que deveriam ser templos sagrados e invioláveis de ensino e proteção à infância e à juventude, ficam expostas à criminalidade e aos perigosos episódios de guerra perpetrados por criminosos.

 

É nesse cenário de terror que o Brasil vivenciou uma das cenas mais emocionantes dos últimos tempos: um professor do Ciep Roberto Morena, na comunidade de Três Pontes, no bairro de Paciência, no Rio de Janeiro, canta com as crianças num corredor da escola, para espantar o medo provocado por intenso tiroteio que ocorria do lado de fora. Tirou os alunos das salas de aula, expostas ao risco de uma bala perdida, protegeu-as num local seguro e cantou com elas, por mais de 40 minutos, para abafar o ruído dos disparos e distraí-las.

 

Roberto Ferreira é o nome do professor, cuja ação viralizou nas redes sociais tirando-o do anonimato com que ele e numerosos de seus colegas das escolas públicas, nas mais inóspitas e violentas regiões do Brasil, professam a fé em sua profissão, desafiando toda a precariedade do sistema para ensinar. A nós, que nos dedicamos a produzir e fornecer materiais escolares, tão importantes para a escolaridade, participando, assim, da cadeia de suprimentos da educação, cabe aplaudir de pé o trabalho desses abnegados mestres.

 

A atuação desses docentes e o episódio em Paciência lembraram-me célebre diálogo da peça A vida de Galileu, do teatrólogo alemão Bertolt Brecht: ‘‘Pobre do país que não tem heróis’’, diz o secretário Andreas ao seu mestre Galileu, e este responde: ‘‘Não! Pobre do país que precisa de heróis’’. Alguma analogia com o Brasil da Lava-Jato e do descaso com a segurança e as prioridades sociais?

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